quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tratar e cuidar em oncologia

Lembro-me enquanto estudante, e no início da minha carreira profissional, pensar em Oncologia como sendo uma área de pouco interesse! Não era sítio onde gostasse de trabalhar com certeza...

Acontece que devido às cambalhotas da vida acabei por ir parar a UDN (Unidade de Doentes Neutropénicos), uma unidade vocacionada para o tratamento de utentes com tumores líquidos, mais propriamente Leucemia e Linfoma.

Hoje em dia, vejo que a nossa função adquire um relevância por mim impensável, muito para além da parte prática, que é de extrema importância, a parte humana e a psicologia necessária para tratar utentes com este tipo de patologia é vital! Arrisco afirmar, que é a nossa personalidade que nos define e diferencia enquanto enfermeiros na prestação deste tipo de cuidados!
O dia a dia com estas pessoas é na maioria das vezes gratificante, no entanto, reveste-se de uma carga emocional que nem sempre é fácil de gerir! Estas pessoas, sujeitam-se a tratamentos prolongados em regime de isolamento, o que faz, que associado à doença que possuem, estejam despidos de muitos dos valores que para nós enquanto pessoas são dados adquiridos, a família, os amigos, o trabalho e acima de tudo a Liberdade! De um momento para o outro a vida desaba em cima deles..., "...ainda há um mês fiz análises e estava tudo bem..."! Pessoas em idade adulta, jovens, que possuíam uma vida normal vêm-se numa situação em que tudo deixa de fazer sentido, como eu costumo dizer, fazem uma pausa nas suas vidas!
O isolamento que este tipo de doença exige numa certa fase do seu tratamento, devido à neutropenia, limita a sua liberdade a um quarto, onde as poucas pessoas que entram usam barreiras que impeçam que o utente corra algum tipo de risco associado. É deste modo, que o enfermeiro passa de apenas um profissional de saúde, para alguém que muitas vezes é a pessoa mais próxima do utente, em algumas situações um amigo, um confidente. Alguém que tem de ter a capacidade de ouvir, de partilhar um sentimento, um silêncio... Toda esta situação acaba por nos influenciar enquanto pessoas, a maneira como nos relacionamos com os outros, daí ser de extrema importância ter a capacidade de "fecharmos a porta" a partir do momento em que voltamos para a nossa vida pessoal! Hoje, a minha já consegue ficar entre-aberta...



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